quarta-feira, 11 de julho de 2012

Rio de Janeiro, 01 de Março de 2012.

Nascido no navio negreiro.
Isso em um navio negreiro. Assumi então o compromisso de vos falar da minha humilde história, não fui grande e nem pequenino, fui somente mais um navegante em épocas do início do descobrimento de um novo mundo.
Mãezinha, pobrezinha vivia em uma aldeia africana, virada de fronte ao mar e com as costas bem protegidas por Oxóssi, o Senhor das matas. Na época o importante não era o casamento, nas terras de onde meus pais vieram, o que sempre ressaltou foi à subsistência e o amor ao povo que vivia unido.  Casada estava com o maior guerreiro e caçador da nossa tribo; bem acredito que posso chamar assim, afinal os que ficaram vivos foram escravizados e como fui feito lá digo que sou muzenzeiro, que seria a melhor tradução do nome do nosso povo.
Papai foi morto por irmãos africanos de outra tribo, digo irmãos, já que mais a frente esclarecerei como chegamos a nos tornar muitos novamente.
Mamãe foi violentada física e moralmente, para não tocarmos em detalhes mais abomináveis das muitas faces humanas. Após dias amarrada a uma corda chegaram os brancos, que só traziam bugigangas para trocar com as tribos maiores e então levaram os escravos.
As correntes prenderam seus punhos, acredito que esta tenha sido a sentença que deram a mamãe. Empurrada e surrada foi levada ao navio atracado distante da praia, quando colocou os pés no assoalho da embarcação levou com o chicote em uma das pernas, que já estava enfraquecida e acabou por quebrá-la.
Nos porões por meses, se manteve muda e se alimentando de restos. Foi assim que viu sua barriga crescer e a cada instante me amando mais, mesmo sabendo do perigo que corríamos, não hesitou por um só instante no fato de parir seu primeiro, que acabou por ser o último filho.
Fui amamentado por duas mulheres maravilhosas, a que me pariu, que só pode fazê-lo por dois meses e a mãezinha que me adotou; a feiticeira de leite. Sempre digo que era feiticeira por que afinal, em tempos idos, nenhuma mulher aos seus quase oitenta anos poderia ter filhos e muito menos produziria leite. Foi assim que vivi até meus quatro anos de vida, comendo restos de peixe e bebendo leite naqueles seios já murchos pela idade e pela quantidade que eu bebia.
Ao chegarmos em terra firme tive muita tontura e por inúmeras vezes cai, acredito que por isso tenha conseguido viver presente no resto de vida da minha Bindará (acredito ser a forma mais fácil de escrever a pronuncia do nome da feiticeira) que ainda me mostrou todo o caminho da magia e da cura dos que mais necessitavam.
Comi muito bem em minha infância, que na verdade fui como esmola ao Senhorio que comprou os mais de duzentos “negros” dos navios que atracaram. O Senhorio queria me vender caro, afinal fui de graça parar nas mãos dele e já com quase trinta anos fui levado para outra fazenda de cana, tudo por causa de um cavalo inglês, que o Senhorio não queria pagar o valor acima da barganha e me ofertou como fim do negócio de aquisição. Engraçado como novamente fui moeda de troca, em uma vida de trocas.
Em novas terras trabalhei e fui açoitado mais que a um cavalo manco, não que concorde com o açoite aos animais. Isso ocorria durante o dia, mas ao chegar da lua o novo Senhorio me trancava com outras escravas como se fossemos animais de reprodução, produzindo ainda mais “negros-escravos”. As escravas se encantavam por mim, afinal ajudava a todos na senzala com os atributos que havia aprendido ainda menino e assim acabei por dar ao Senhorio mais de quinze filhos meus.
Um de meus filhos se tornou um grande líder da senzala e do povo que lá vivia, não dava um único passo em sua liderança sem antes me consultar. O desejo maior dele e do seu povo, os senzaleiros (assim eu os chamava), era ganhar a mata e conhecer o Oxóssi, de que tanto eu vos falava.
Em uma das inúmeras tentativas de fuga que fizeram me atrevi a ir, tenho que nesta decisão selei meu inesperado destino. Como já estava com certa idade fiquei como retardatário e acabei pego pela cavalaria do Senhorio. Como para ele fui um ingrato mandou o capitão me acorrentar aos pés de uma forte e frondosa aroeira, as margens do que depois veio a ser chamado de o Grande Chico (Rio São Francisco), após o frio, a fome e os arrependimentos percebi a presença de minhas, já por muitos anos falecidas, mães. Fiquei reconfortado no coração ao vê-las de mãos dadas e me dizendo amorosamente:
 “... vêm Tião é chegada a hora, Aruanda te espera.”
 – Não posso ir, não consigo me desprender das correntes (disse isso a elas já me sentindo mais forte e entusiasmado.)
Então me responderam: “... filho, tu já não precisa mais se preocupar com as correntes, és agora um negro livre. Venha conosco, precisas aprender e entender muitas coisas. O povo desta terra precisará de teus enganbelos e preces em Aruanda” ... “logo verás o quão importante acabou de se tornar o Nego Véio Tião. Uma história conhecida como a do Nêgo fujão que se encontrou com o Pai Oxóssi e Pai Ogum, que voltou a Ifé pra trazer paz aos Negros das terras e de Aruanda.”
Então soltei-me facilmente das amarras materiais e hoje volto pra esta terra trazendo luz aos escravos dela.
Véio Tião da Guiné.